Meia Maratona do Rio, vitória e emoção

Hoje vamos transcrever o artigo emocionante escrito pelo amigo Freire Neto, que correu sua primeira Maratona e acompanhou Vlad neste viagem.

“Dias de luta. Dias de glória! Enfim, concluí minha primeira Meia Maratona neste domingo 7 de julho de 2013, em 2h51min. Estava eu ao lado de cerca de 22 mil corredores de vários estados brasileiros e até de outros países. Um dia para lembrar para sempre e marcado pra eternidade. Difícil, dura, cansativa, mas especial e um marco, uma vitória minha e de todos os meus amigos, parentes e principalmente do meu pai, Rômulo Freire (in memorian). Essa luta, prova, começou há quase dois anos atrás. No dia 16 de julho de 2011, estava eu em Copacabana com todos os amigos da Natal Runner, quando na madrugada do dia 17/07, tive que voltar para casa, em Natal, sem correr os 21 km da Meia Maratona. Havia recebido aquela que seria uma das notícias mais duras e difíceis da minha vida. Meu pai, havia falecido, devido a um infarto fulminante do miocárdio, aos 52 anos.

Pai Freire Neto

Ele estava internado se recuperando de uma crise renal. Não viajaria ao Rio, caso ele não estivesse bem e não tivesse pedido para eu ir. “Vá e traga essa medalha para casa”, disse ele em uma de nossas últimas conversas. Naquele sábado que antecedeu a prova de 2011, conversamos umas 3 vezes. Em todas, ele estava feliz, sorridente, brincalhão e em paz. Sempre me incentivando e pedindo para aproveitar o RJ. Mas Deus o levou por volta da meia-noite do dia 17/07, a sua missão nessa vida havia chegado ao fim.

Ainda na madrugada, recebi a “porrada”. Demorei a acordar e acreditar. A dor foi grande e desnorteante, mas você não pode se entregar. Meu cunhado, Léo Melo, meu treinador, Walter Molina, e um companheiro de Natal Runner, Carlos Othon, estavam comigo no quarto do hotel carioca. Tomei um dos banhos mais demorados e gelados da vida. Chorei. Chorei. Chorei. A volta para Natal durou quase 12h. Um filme passou na minha mente. É difícil e fulminante conviver com a dor e a saudade. Mas é preciso seguir em frente. Aprender com o tombo e continuar lutando.

No transfer desse domingo, 07/07/2013, do Flamengo até a largada na Barra, todo o filme de 2 anos atrás passou pela minha cabeça. Parei de treinar. Fiquei mal. Engordei. Mas o sonho de correr 21 km e levar a medalha pra casa continuava vivo. E eu estava novamente na Cidade Maravilhosa e mesmo sem ter treinado o quanto deveria e gostaria, em 30 minutos, largaria para minha corrida de rua mais difícil e dolorida até então. Chorei. Orei. Rezei. Agradeci. Naquele ônibus da organização, estava ao lado das companheiras Runners Lorena Laurentino e Priscila Dantas, que me deram muita força e motivação.

Equipe Natal Runner chegada_Maratona e meia do RJ 2013

Chegara a hora de largar e partir para mais uma luta. Senti várias vezes a força do meu pai comigo. Sentia que eu chegaria ao final e completaria o percurso da Barra ao Aterro do Flamengo de qualquer maneira. Quando Laura dos Anjos, minha filha, nasceu (maio de 2012), eu decidi voltar a correr. Mas só no final do ano passado, retornei aos treinos. Musculação na Ápice Academia em Natal, com o apoio do coach Léo Coutinho e do meu amigo Ricardo Barros; corrida com a Natal Runner do meu irmão e treinador Walter Molina, e comecei a realizar um sonho de criança, aprender a jogar tênis, com o super atleta Jeferson Rodrigues, no Aeroclube do RN, com o super apoio do presidente e grande amigo Fábio Macêdo. Tudo isso, com um objetivo: completar os 21km da Meia Maratona do RJ e ter uma vida saudável, com disposição, força e vitalidade. Quero ser um exemplo de Pai para Laurinha e para Davi dos Anjos, que nascerá em setembro, se Deus quiser.

Freire chegando_Maratona e meia do RJ 2013

Em abril, encontrei um livro e me fascinei com as teorias e ensinamentos do médico francês Pierre Dukan, e iniciei a dieta. Do jeito que consegui e com a carga de treino que pude fazer embarquei para o Rio, saindo de Recife, como em 2011, após apresentar o programa ao vivo do Shopping do Automóvel de PE. Confiante, ansioso e com aquele frio na barriga antes de qualquer batalha. No vôo e durante toda a viagem, a companhia do amigo Vladimir Melo, corredor, que faria a sua primeira maratona e entraria para o seleto grupo dos 42km.

SONY DSC

Os 15 km percorridos em Natal, uma semana antes, com o apoio da minha amiga/irmã, Lorena Laurentino, me deram a confiança necessária para estar ali às 6h40 do domingo e partir. Assim como os 25 kg a menos, eliminados desde janeiro desse ano. Estar com menos de 100 Kg e com resistência também dão forças e a experiência de correr há 4 anos.

Estratégia preparada, roteiro revisado mentalmente. Partimos. O termômetro da largada marcava 18 graus. O sol ainda se escondia por trás de algumas nuvens e a adrenalina temperava a ansiedade e o ímpeto de acelerar por cerca de 20 km. Ao sair da Barra, logo pegamos o elevado do Juá em direção a Zona Sul do Rio. Subimos por cerca de 1 km, tranquilos e mantendo o ritmo traçado – entre 7min30 e 8min por km. Ao meu lado, Lorena Laurentino, Priscila Dantas e alguns runners potiguares. Logo alguns seguiram os seus ritmos, enquanto eu conitnuei ao lado de Lorena e Priscila. Tínhamos metas parecidas e iríamos juntos até quando fosse possível. Após pouco mais de 2 km de subida, entramos em um túnel e seguimos em direção a Niemeyer, onde encontraríamos um cenário deslumbrante da Baía da Guanabara, o sol nascendo e a temida e famosa subida do Vidigal. Foram cerca de 3 km subindo com retas e curvas. Algo como as ladeiras da Via Costeira em Natal, só que com curvas e altimetria mais acentuadas. Eu, particularmente, gosto de subir ladeiras treinando, acelero e forço. E forcei. Lá em cima, por volta do Km 6, um posto de água da prova pra refrescar e lembrar da hora do primeiro gel de carboidrato.

O clima seco e a temperatura baixa para um nordestino, a baixo dos 20 graus, me fizeram sentir um pouco de falta de ar, após molhar a cabeça, o peito e a nuca. Mas nada que me fizesse parar. Mas incomodou. Descendo, chegamos ao Leblon. Durante esse trecho, 3 km, uma dupla animada quebrou o gelo, brincando, parando pra fotos e zoando algumas figuras ao longo do trajeto. Alguns bêbados ainda em farra, em plena 7h20 de domingo, ensaiavam uma pequena manifestação e gritavam palavras de ordem, mas por zoação do que por protesto.

Ao iniciarmos o trecho mais plano e bonito da prova, chegávamos a barreira dos 10 km. Reduzi o ritmo. Deixei as meninas seguirem, sem acompanha-las de perto. Um incômodo na parte posterior da coxa esquerda aumentara e as dores foram se intensificando com o tempo e o esforço. Temi uma distensão ou contratura, reduzi, mas a todo instante reforçava para mim mesmo, que nada me faria desistir.

FN perfil_Maratona e meia do RJ 2013

O Rio é realmente a Cidade Maravilhosa. As paisagens inspiram e as pessoas na rua incentivam. “Vai guerreiro”. “É isso aí”. “Não desiste”. Chorei. Lembrei de casa. Pensei em Sandra, minha esposa e companheira; na nossa filha, Laura dos Anjos; em Davi, que ainda nem conheço, mas já sinto sua energia; na minha mãe, Mag Sodré (eterna guerreira) com quem andei desde cedo pelas ruas das cidades por onde moramos (Salvador, Recife, Natal, Montes Claros, etc.); minha irmã, Mila Freire; e em todos os familiares e amigos que sempre vibram com minhas lutas e superações. Lembrei de todos os meus treinos e dificuldades. E senti que não seria aquelas dores que me pararião. Arripiei. Lembrei do Meu “Velho”. Imaginei ele ali, sentado num daqueles banquinhos de Ipanema. Vibrando, chorando e fazendo sinal de positivo. Como o de Reginaldo Rossi, uma vez no aeroporto de Salvador. “Ei dor, eu não te escuto mais. Você não me leva a nada”, cantou Lorena, sorrindo para mim. E a música de Jota Quest me acompanhou.

Antes de chegar em Copacabana, entre choros e lembranças, pedi raça pra mim mesmo. Como a torcida do Flamengo faz quando o time precisa vencer de qualquer maneira. Se não dá na técnica, vai na raça, garra, vontade e com o coração, mas vai. Lembrei dos longões que fiz desde quando comecei a correr – Via Costeira, do Leme ao Pontal, Barra da Tijuca, Petrópolis, Parque das Dunas, Alphaville. Recordei de um treino que fiz no Rio em 2012: “Do Leme ao Pontal, não há nada igual…no mundo”, cantei alto. E segui num ritmo confortável de Copacabana ao Leme. Os postos de hidratação, frutas e banhos aliviavam as dores e os medos. Os cariocas em pleno domingo antes de 8h aplaudindo e enviando energias positivas e palavras de apoio me emocionavam e me davam forças. Pais, avôs, filhos, todos ali, pela saúde e pelo esporte. Parar? Desistir? Nada disso. Sempre em frente.

Com 2 horas de prova, completei 15,5km. Tinha a certeza que completaria os 21km, mesmo que fosse andando. Queria chegar. Terminar aquela batalha contra os meus limites e atingir a marca sonhada, desejada. Receber a medalha que não é só minha, mas de todos que sonharam comigo e que de alguma forma me ajudaram a correr e seguir. Superei o maior percurso do ano, até então, e sabia que faltava pouco. “Bora Natal, a chegada é logo ali. Não desiste”, gritou de dentro da sua alma um voluntário da organização, fazendo alusão a minha camisa com o nome Natal Runner e lembrando pra mim, que aquela era hora da última reserva. “Não pára, não desista. A chegada nunca esteve tão próxima. Vai Natal…”

Tomei o terceiro gel de carboidratos para finalizar e seguir na raça e com o coração, até a linha de chegada. As pernas estavam pesadas. Tentava aumentar a velocidade, mas não conseguia. A coxa esquerda estava repleta de ácido lático, dura e preocupante. Tinha fôlego, mas não o controle da minha musculatura. Mais um túnel e o muro dos 18km para chegar a Botafogo e em seguida, ao aterro do Flamengo. Os primeiros maratonistas (42 km) começavam a passar por mim. Muita gente na rua, pais e filhos andando de bicicleta e acompanhando aqueles “malucos” que deixaram a companhia dos seus familiares para superar limites e vencer batalhas. Não conseguia mais segurar as lágrimas e via o rosto do meu pai a todo instante, sorrindo e chorando.

21km depois FN_Maratona e meia do RJ 2013

Os 3 últimos quilômetros foram os mais longos. O corpo estava repleto de endorfina e anestesiado. Nunca até então 3000 mil metros foram tão longos e chorados. Agradeci, chorei e festejei. Reta de chegada. Aplausos, gritos, incentivo. “Falta pouco. Parabéns. Não para”, me disse uma senhora emocionada. Não por mim, mas com certeza pelo semblante de satisfação de todos aqueles corredores. Cada um a sua maneira e com suas histórias. Antes do pórtico de chegada, vi Walter Molina e o brilho de satisfação ao ver seu amigo e aluno realizar um sonho e cumprir uma promessa. “Valeu Freire. Parabéns guerreiro. Você conseguiu”!

Medalha Meia do Rio 2013

Taí pai, superamos juntos esses 21 km. Uma alegria e satisfação inexplicáveis. Tudo podemos, quando queremos e lutamos. Foco, fé e trabalho, essas palavras norteiam um vencedor, guerreiro, empreendedor sedento por superação e batalhas. Nunca diga nunca para quem nasceu pra lutar e vencer. Não corro por tempo, para superar um adversário, nem por marcas, luto por mim, pelos meus, e para quebrar paradigmas e estereótipos. Levante e lute. Tenha qualidade de vida e seja feliz. Ao cruzar a linha de chegada encontro Lorena e Priscila. Felizes e satisfeitas, emocionadas e com mais uma Meia Maratona finalizada. “Eu não disse que terminaria, parabéns. Ele estava contigo”, curtia e chorava comigo, Lorena Laurentino.

Freire agradece chega_Maratona e meia do RJ 2013

“Guerreiro, tá ligado, que guerreiro é assim. É difícil para você, é difícil pra mim”, cantava Chorão. Obrigado a todos os amigos, parentes, companheiros e conhecidos da corrida e a quem leu essa história. Não sou exemplo pra ninguém e nem tampouco quero que você seja corredor. Mas, acredite nos seus sonhos e lute para realiza-los. Cuide da sua saúde e detone todos os paradigmas e estereótipos que você conhece. Não arrume desculpas para o esporte, porque as doenças e o estresse não terá a mínima vergonha de te derrubar e levar para o hospital. Organize-se e priorize. Se mandarem você parar, siga. Se te pedirem para desistir, lute. Não acredite em realização sem esforço e saiba que quem planta, colhe, aquilo que plantar. Quebrei a barreira dos 21 km. Farei outras Meia Maratonas e daqui a 2 ou 3 anos, que venha a primeira Maratona. Ei, 42 Km, chego já. E quando eu digo, eu faço! Senta a Pua! Just do it! Obrigado Senhor. Deus no controle e no comando. O tempo é o senhor da razão.” Freire Neto – freireneto@usinacom.com.br

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